
O Peso do Silêncio
Meu celular vibrou na mesinha de cabeceira.
Mais uma notificação. Mais uma mensagem. Mais uma pessoa querendo saber onde eu estava.
Não mexi um músculo.
Só fiquei ali, deitada na cama, olhando para o teto do quarto e contando as manchas de umidade como se fossem constelações num céu que tinha parado de brilhar.
O despertador tocou às seis e quarenta e sete. Eu já estava acordada fazia uma hora. Tentando lembrar como era dormir de verdade. Não aquele cochilo entrecortado de quem tem medo de sonhar.
Dormir de verdade.
Não lembrava mais.
Peguei o celular. Destravei a tela. Vinte e duas mensagens no Instagram. Doze e-mails de marcas querendo parcerias. Três ligações perdidas da minha mãe.
Nenhuma delas importava.
Abri o Instagram mesmo assim. Meu feed se encheu de fotos perfeitamente iluminadas de vidas perfeitamente construídas.
Cada foto era um soco.
Não porque eram falsas. Talvez fossem reais. Talvez aquelas mulheres realmente acordassem radiantes todos os dias.
O soco era porque eu costumava ser uma delas.
Abri meu próprio perfil.
Olhei para o espelho embaçado ao lado da cama. Não diretamente. Nunca diretamente. Mas o suficiente para captar o borrão que eu tinha me tornado.
Cabelo despenteado. Olheiras profundas. Camiseta amarrotada de três dias atrás.
Voltei para os comentários na minha última foto:
“Cadê você, Amanda?”
“Está tudo bem?”
“Sentimos sua falta!”
“Amiga, só um oi pelo menos?”
@carolzinha_fit tinha deixado quinze mensagens nas últimas duas semanas. Todas visualizadas. Nenhuma respondida.
A última dizia: “Mands, to preocupada de verdade. Você sempre foi minha inspiração. Me manda um sinal de vida?”
Minha inspiração.
Ri. Um som sem graça. Amargo.
Eu não era inspiração de ninguém. Eu era um aviso. Uma placa de trânsito piscando: “CUIDADO – INFLUENCER QUEBRADA”.
Fechei o Instagram. Travei a tela. Joguei o celular na mesinha com mais força do que pretendia.
Ele quicou, bateu na borda de madeira e caiu no chão.
Estalo seco.
Não me levantei para pegar.
Levantei da cama com aquele esforço que tudo requer agora. Como se meu corpo pesasse o dobro do que a balança indicava. Talvez pesasse mesmo. Talvez o peso da tristeza fosse algo que as balanças comuns não conseguiam medir.
O quarto era um desastre.
Não aquele desastre charmoso de filme. Era o desastre real de alguém que tinha parado de fingir.
Roupas espalhadas pelo chão. Roupas que eu tinha experimentado e descartado porque não serviam mais. Oito quilos a mais têm esse efeito.
Embalagens vazias de delivery empilhadas no criado-mudo. Pizza, hambúrguer, comida japonesa, mais pizza. O lixo transbordando fazia três dias. Eu tinha começado a empilhar as caixas ao lado do cesto porque não conseguia fazer a caminhada de quinze passos até a cozinha para pegar um saco novo.
Na cadeira ao lado da janela, um casaco de couro marrom estava pendurado. Exatamente onde eu o havia colocado meses atrás.
Não conseguia guardá-lo no armário.
Isso seria admitir demais.
Arrastei os pés até o banheiro. Passei direto pelo espelho sem olhar.
Eu tinha desenvolvido essa habilidade: usar o banheiro inteiro sem nunca encarar meu próprio reflexo. Escovava os dentes olhando para a torneira. Lavava o rosto de olhos fechados. Prendia o cabelo por tato.
Porque no dia em que eu finalmente olhasse de verdade para mim mesma, teria que admitir o que já sabia. Que eu tinha me tornado uma versão desfocada da pessoa que costumava ser.
Que a Amanda Gaia de trezentos e oitenta mil seguidores tinha virado uma mentira ambulante.
Voltei para o quarto. Peguei o celular do chão. A tela tinha rachado no canto superior direito.
Mais uma coisa quebrada para adicionar à lista.
Fui para a cozinha porque precisava fazer alguma coisa com as mãos.
A cafeteira estava no lugar de sempre. Ao lado do pote de açúcar e de uma caixa de chá de camomila ainda lacrada.
Liguei a cafeteira. O ritual era reconfortante. Água fervendo. Cheiro se espalhando. O barulho familiar do líquido pingando no bule.
Peguei duas xícaras do armário.
Duas. Sempre duas.
Minha mão fazia isso automaticamente toda manhã. Como se meu corpo tivesse esquecido de atualizar o software.
Segurei a segunda xícara. Aquela de cerâmica azul. Grande. Pesada.
Senti o peso dela. A textura áspera. A alça levemente lascada.
E então, sem aviso, simplesmente deixei ela escorregar dos meus dedos.
A xícara se estilhaçou no chão da cozinha.
O barulho ecoou. Alto. Definitivo.
Era o som mais honesto que tinha saído daquela casa em meses.
Fiquei parada. Olhando para os cacos azuis espalhados no piso branco.
Me ajoelhei para juntar os pedaços.
Foi quando vi. Sangue. Meu dedo cortado num caco.
Olhei para o corte. Pequeno. Mas sangrando.
Não senti nada.
Nem dor. Nem susto.
Apenas uma constatação distante: meu corpo ainda funciona.
Levantei. Lavei a mão. Enrolei papel toalha no dedo. Deixei os cacos no chão.
O café tinha passado. Peguei a única xícara que sobrou. Servi.
Preto. Amargo. Honesto.
Sentei à mesa da cozinha. A mesma mesa onde tomávamos café juntos toda manhã.
Bebi olhando para a cadeira vazia na minha frente.
O telefone tocou.
Não vibrou. Tocou alto. Insistente.
Minha mãe. De novo.
Olhei para a tela. Nome “Mãe” piscando como acusação.
Deixei tocar três vezes. Quatro. Cinco.
No sexto toque, atendi.
— Oi, mãe.
— Amanda! — A voz dela saiu num suspiro aliviado. — Eu liguei cinco vezes!
— Eu sei. Desculpa.
— Filha, eu estou preocupada com você.
— Eu tô bem.
Silêncio do outro lado. Aquele silêncio de mãe que sabe quando você está mentindo.
— Você não atende telefone. Não responde mensagem. Não sai de casa há semanas.
— Mãe, eu só preciso de um tempo.
— Faz meses, Amanda. — A voz dela ficou mais baixa. Mais cuidadosa. — Meses que você está “precisando de um tempo”.
Fechei os olhos. Apoiei a testa na parede fria.
— Eu não sei o que você quer que eu faça.
— Quero que você venha almoçar aqui hoje.
— Mãe, eu não posso—
— Não estou perguntando. — Ela ficou firme. — Meio-dia. Eu faço aquele frango com alecrim que você gosta.
— Eu realmente não tô—
— Meio-dia, Amanda. — Ela não deixou espaço para negociação. — Se você não aparecer, eu vou aí te buscar. E você sabe que eu não faço ameaças vazias.
Meu estômago revirou.
Porque sair de casa significava trocar de roupa. Pentear o cabelo. Fingir que estava bem o suficiente para dirigir até lá.
— Mãe…
— Meio-dia. — Ela repetiu. — Não me obrigue a ir aí.
E desligou.
Fiquei parada. Telefone na mão. Olhando para os cacos da xícara azul ainda espalhados no chão.
Minha mãe não fazia ameaças vazias. Nunca fez.
Se ela dissesse que ia aparecer aqui, ela ia. E se visse o estado da casa, do meu quarto, de mim…
Olhei para o relógio do micro-ondas.
Oito e quarenta e sete.
Três horas e treze minutos para me transformar numa versão apresentável de ser humano.
Comecei a pegar os cacos. Um por um. Devagar.
Cada pedaço de cerâmica azul parecia pesar mais do que deveria.
Como se não fosse só uma xícara quebrada.
Como se fosse tudo que eu não sabia como consertar.
Quando terminei de juntar todos os fragmentos, fiquei olhando para eles na minha mão.
Pedaços irregulares que não tinham mais jeito de voltar a ser inteiros.
Assim como eu.
Joguei os cacos no lixo.
Lavei as mãos.
Olhei para o relógio de novo.
Oito e cinquenta e três.
Respirei fundo.
E comecei.
Um passo de cada vez.
Uma mentira de cada vez.
Porque era isso que eu tinha virado boa em fazer: mentir.
Mentir para minha mãe que estava bem.
Mentir para seguidoras que só precisava de um tempo.
Mentir para mim mesma que amanhã ia ser diferente.
Hoje, eu ia ter que mentir pessoalmente.
Cheguei na casa da minha mãe às doze e quinze.
Quinze minutos atrasada. Não por causa do trânsito. Mas porque fiquei quinze minutos parada no carro, olhando para a porta e juntando coragem para sair.
A casa parecia menor do que eu lembrava.
Bati na porta mesmo tendo chave. Parecia errado entrar sem avisar.
Minha mãe abriu antes do segundo toque.
— Você veio.
— Você não me deu escolha.
— Nunca dou. — Ela me puxou para dentro. — Entra. Tá quente lá fora.
A casa cheirava a alecrim e alho.
O cheiro da infância. De domingos em família. De quando ainda éramos completos.
A memória veio sem aviso. Bateu no peito.
— Senta. — Minha mãe apontou para a mesa. — Vou servir.
Sentei na cadeira de sempre. Do meu lado esquerdo, a cadeira vazia.
Ninguém sentava lá fazia meses.
Minha mãe colocou um prato na minha frente. Frango com batatas. Salada. Arroz.
Comida de verdade.
— Come. — Ela sentou na frente de mim. — Você tá magra.
— Eu ganhei oito quilos.
— Tá magra por dentro.
Não soube responder. Peguei o garfo. Levei um pedaço à boca.
Tinha gosto de obrigação.
Mas tinha gosto.
— Como você tá? De verdade. — Minha mãe perguntou.
— Bem.
— Amanda.
— Tô… sobrevivendo.
— Sobreviver não é viver.
— É o melhor que eu consigo.
Ela suspirou. Empurrou o próprio prato para o lado. Inclinou o corpo na minha direção.
— Filha, eu sei que você tá sofrendo. Eu também tô. — A voz dela tremeu. — Mas eu não posso perder minha filha também.
— Você não tá perdendo ninguém.
— Não? — Ela gesticulou. — Quando foi a última vez que você postou? Que saiu de casa? Que se olhou no espelho?
Cada pergunta era uma facada.
— Mãe, eu só preciso de mais tempo…
— Tempo pra quê? — As lágrimas dela começaram. — Pra desaparecer completamente?
— EU NÃO SEI COMO PARAR DE SENTIR ISSO! — Explodi. — Eu não sei como acordar e não lembrar. Eu não sei como fazer café sem pegar duas xícaras. Eu não sei como viver sabendo que…
Parei.
— Sabendo o quê? — Ela segurou minha mão.
— Que eu podia ter percebido. — Minha voz quebrou. — Os sinais estavam todos lá, mãe. Ele tava cansado. Pálido. Parava no meio da escada pra respirar. E eu tava tão ocupada postando sobre autocuidado que não cuidei dele.
— Amanda, não foi sua culpa.
— COMO NÃO FOI? — As lágrimas vieram. — Eu ensino pessoas a viverem melhor! E meu próprio pai morreu de algo que eu deveria ter visto!
Silêncio denso.
Minha mãe apertou minha mão com força.
— Seu pai era adulto. Ele tinha médico. Tinha informação. Tinha VOCÊ implorando pra ele fazer check-up. — Ela levantou meu queixo. — Você lembra quantas vezes pediu? Quantas vezes ofereceu ir junto?
Lembrava. Todas as desculpas dele.
“Não precisa, Mandy. Eu tô bem.”
“Depois desse projeto, eu marco.”
“Médico é pra gente doente.”
— Ele ESCOLHEU não ir. — Minha mãe continuou. — Escolheu trabalho antes de saúde. E você não pode carregar a culpa das escolhas dele.
— Mas eu…
— Mas nada. — Ela limpou minhas lágrimas. — Seu pai te amava mais que tudo. E a última coisa que ele ia querer era te ver assim. Se destruindo. Desistindo.
Chorei.
O choro feio. De ranho. De soluço. De corpo que dobra.
Minha mãe me puxou para um abraço. Apertado. Segurando todos os pedaços que estavam se despedaçando.
Ficamos assim. Não sei por quanto tempo.
Quando finalmente parei, ela disse:
— Você precisa de ajuda, filha. Ajuda profissional.
— Eu sei.
— Então por que não procura?
Silêncio.
— Amanhã, nove da manhã, você tem consulta com uma psicóloga. — Ela pegou um papel da geladeira. — Eu já marquei.
— Mãe, você não pode—
— Posso. E marquei. — Ela colocou o papel na minha frente. — Dra. Helena Pacheco. Se você não for, eu vou junto.
Olhei para o papel.
— E se não adiantar?
— Aí tentamos outra coisa. — Ela beijou minha testa. — Mas desistir não é opção.
Assenti.
Ficamos mais um pouco. Ela me fez comer mais. Me contou sobre a vizinha dos gatos.
Conversas pequenas. Quase normais.
Como se por algumas horas pudéssemos fingir normalidade.
Voltei para casa às três da tarde.
A casa estava silenciosa quando entrei. Como sempre.
Tranquei a porta. Joguei a bolsa no sofá. Tirei os sapatos.
Fui para o quarto.
Foi quando percebi.
A porta estava entreaberta.
Eu tinha certeza que tinha fechado.
Parei. Coração acelerando.
— Tem alguém aí?
Silêncio.
Empurrei a porta devagar.
E ele estava lá.
Sentado na cadeira ao lado da janela. O casaco de couro marrom agora dobrado no encosto.
Alto. Moreno. Roupas simples. Olhos profundos demais.
Ele não pareceu surpreso.
Apenas… esperava.
— Quem é você? — Minha voz saiu firme. — E como entrou na minha casa?
Ele me olhou. Como se pudesse ver através de mim.
Quando falou, sua voz era calma:
— Meu nome é Apollo.
Ri nervosa.
— Ótimo. Invasor mitológico. — Peguei o celular. — Vou ligar pra polícia.
— Você não vai.
— Ah, não?
— Não. — Ele se levantou. — Porque você sabe por que estou aqui.
— Eu não sei de nada.
— Sabe. — Ele deu um passo. — Você pediu. Esta manhã. Quando quebrou a xícara. Quando cortou o dedo e não sentiu nada. Quando pensou: “preciso que algo aconteça. Qualquer coisa.”
O ar saiu dos meus pulmões.
— Como você sabe disso?
— Porque não sou o primeiro que você chama. — Ele olhou para o casaco. — Sou o segundo.
Meu sangue congelou.
— Você conheceu…
— Seu pai. — Ele completou. — Alberto Gaia. Sim.
O chão desapareceu.
— Você está mentindo.
— Não estou.
— PROVE!
— Na última vez que foram ao mercado, três semanas antes dele morrer, ele comprou chá de camomila. — Apollo não piscou. — Mesmo não gostando. Porque você comentou que queria experimentar.
Minha respiração parou.
— A caixa está na sua cozinha. Intocada. Porque abrir significa admitir que ele nunca vai tomar chá com você reclamando.
Lágrimas instantâneas.
— Como você sabe?
— Porque eu estava lá. Nas últimas semanas dele. Tentando salvá-lo. — Ele caminhou para a janela. — E falhando.
— Por que está aqui?
— Porque prometi a ele. — Apollo olhou para mim. — Que acharia você.
— Prometeu o quê?
Ele apontou para a janela.
— Olha.
Caminhei. Parei ao lado dele.
E vi.
No reflexo. Silhuetas. Sombras sem rosto.
Rodeando a casa.
— O que é isso?
— Os inimigos que seu pai ignorou. — Cada palavra pesava. — E agora vieram buscar você.
Olhei para as sombras. Para Apollo. Para meu reflexo.
E finalmente entendi.
Fiquei parada.
Olhei para os cacos da xícara azul no chão da cozinha.
A xícara que não era minha.
Era dele.
Do meu pai.
Que nunca mais ia usar.
Porque fazia seis meses, quatro dias e aproximadamente onze horas que eu tinha encontrado ele morto no quarto dele.
E desde então…
…tudo tinha parado.
Inclusive eu.
Não perca o próximo capítulo
Receba cada novo capítulo diretamente no seu e-mail. Sem spam, sem enrolação. Apenas a história, na sua caixa de entrada.

Enquanto espera os próximos capítulos, conheça o Apollo
A história completa do guardião que falhou em salvar o pai de Amanda. Um guia direto para reconhecer e enfrentar os “inimigos” do coração — antes que seja tarde.
Acessar a edição digital